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17 de fevereiro de 2011

inteiriço

O fracasso como assunto central na obra de Beckett é algo que muito me interessa. O fracasso de permanecer inteiro.
(Tatiana Blass – artista plástica, sobre sua exposição Fim de partida, baseada na peça homônima do dramaturgo)

As manias de se desculpar por tudo. A vergonha de estar em público. O medo da claridade. O horror à luz do sol. As rugas no rosto. Ansiedade. Aflição contínua.
Se Jorge se desejasse inteiro, ainda assim, seria pequeno e pouco. E assim gostava. Chegar quieto, passos mudos e ouvidos quase surdos. A voz baixa, o riso curto e os gestos contidos.
Saia, chegava, permanecia e ninguém notava. Trabalho posto, trabalho pronto. Sem elogios, sem perguntas e sem respostas. Amores nulos e a tímida alegria do desconhecimento.
Na família, o mais íntegro. No trabalho, o mais eficiente. Na rua, mais um. Assim, lembrava-se a irmã Norma, sozinha na sala escura onde o corpo de Jorge permanecia estático.

10 de fevereiro de 2011

Ao fim da aula

Suando e passando as mãos no rosto, o Professor Rocha pediu licença e proferiu seu discurso:

“Gostaria de poder falar em palavras belas, construções que se referenciassem em textos clássicos ou em cultuados autores. Mas minha folha molhou. A chuva lavou o que havia projetado, mas não levou o que havia planejado. E tenho pensado, há pelo menos 10 dias, que eu deveria falar algo para a última turma a qual lecionarei.
Nunca acreditei que eu fosse me cansar. Porém, certas coisas independem de nossas vontades. Acontecem.
Gostaria de lhes contar que o mundo já não necessita dos que saibam com destreza dançar o lago dos cisnes, ou representar Hamlet com dissimulação adequada. Não. Não precisamos dos que saibam cantar Águas de Março com todas pausas nos lugares ou tocar Chopin com a eloquência medida. Não precisamos, mas se encontrarmos, melhor para nós.
O grande problema mora nas boas manifestações que já vimos disso tudo, portanto, no alto nível de nossas críticas.
O que desejamos, mesmo, de coração aberto é de reinvenções. De novas interpretações. Eu, nos meus longos anos nesse ofício, procuro em cada olhar o brilho do novo, o fascínio por descobrir. Procuro alguém faça do cisne, um hip hop com doses de samba. Do Hamlet, um boêmio incompreendido. Das Águas um bom e velho funk. Do Chopin. Ah! O Chopin. Alguém que o faça com o berimbau afinado.
Não procuro o novo, por já desacreditá-lo, mas procuro a renovação. E essa busca me faz aposentar...”

A essa altura, Cristiano, na última mesa da segunda fila da esquerda já não conseguia anotar. As lágrimas apagavam cada redonda letra escrita com pressa. E sofrimento.

Esse texto foi inspirado na apresentação de um jovem, num programa de televisão, na última quarta-feira. O garoto realizou uma releitura do Lago dos Cisnes, tradicional peça do Balé Clássico em movimentos da street dance. Ainda, pensei em minha pesquisa, que trata da crítica de arte. Minha pretensão é alcançar o fascínio que a renovação pode trazer às expressões artísticas.

6 de fevereiro de 2011

Da primavera

Abria, pela manhã. À noite, se recolhia.
A cada desabrochar me admirava com o sorriso, deixado sobre a mesa de trabalho, lembrando-me o tempo. Há dias tenho acordado e adormecido, tentando captar os singelos movimentos das plantas que, em companhia, vivem em meu quarto.

1 de fevereiro de 2011

Galante

– O que acha? – perguntou estendendo-me a mão, logo no início de um tango ou bolero. Não conheço de música.
– Obrigado, mas não sei – respondi, já com o rosto corado e o olhar desviante.
Ela sentou-se novamente e esperou, até tocarem algo melhor. Mais fácil.
Nos primeiros acordes do forró, repetiu a cena.
– Não. Prefiro ficar aqui – disse, parecendo pesar 200 kilos e não conseguir me mover.
Ela aguardou em pé, sem soltar-me a mão. Aguardou remexendo meus dedos, acariciando-me a pele das mãos.
Entendera que a dança da qual mais gosto é a do flerte tímido e brejeiro. Da conquista medida em milésimos de segundos.

24 de janeiro de 2011

Ohando a dissolução das nuvens

Sentada, com a cadeira levemente entortada para a esquerda, Maria bebericava o café. Manhã. Às 7 Maria abre um olho. Às 7 e 10 o outro. Às 7 e 20, os dois juntos. Às 7 e meia rola de um lado para o outro. Às 8 já está de pé, dentes escovados e café no fogo. Prefere quando a água ferve. Às 8 e 10 Maria está sentada, com a cadeira levemente entortada para a esquerda, na sacada da sala, olhando o movimento da rua e tomando café. Café e pão com manteiga sustentam até chegar o almoço, que chega por suas mãos furadas da agulha que já tem um furo muito menor do que há 20 anos atrás. Hoje, a rua está mais acelerada, mal dá pra ver o rosto dos que passam. E passam rápido, com sacolas, com sorrisos e cigarros. Hoje, talvez, o sol já tenha esquentado a cadeira. Se enxergasse as letras, pegaria o jornal estendido na portaria do prédio. Mas nem tem tanto tempo. O dia está para começar no silêncio que fará a espera para dormir.